Cantos de Santos

Estou sentada diante da tela do computador tentando acabar o trabalho que deve ser entregue no dia seguinte quando um som, vindo da rua, me leva para uma viagem à minha Santos de outros tempos. Não é o bar na esquina que emenda uma festa por conta do feriado. Nem a buzina dos carros que ainda circulam ansiosos em voltar para casa após mais um dia de trabalho. É um som diferente, com cheiro de infância e gosto de quero mais.

Ouço ao longe o silvo de um apito e à medida que ele se aproxima a voz que o segue fica mais clara e inteligível. “O amendoim está de volta…”, diz o homem do amendoim, que vende não só amendoim torrado, mas também paçoca, no carro que cruza diariamente as ruas do bairro. Já sei que deve ser perto de 9 da noite, a hora em que ele está de volta. Algumas horas antes, anunciou sua ida. E agora, ele também, o carro do amendoim, ansia por voltar à casa, sem perder a esperança de vender o final do estoque do dia.

Nem preciso ir até a janela para sentir o cheiro de amendoim torrado ou o gosto da paçoca doce fazendo a festa na minha boca. Sequer necessito viajar em uma máquina do tempo para lembrar a infância e a turma da rua correndo atrás do homem do amendoim.

Eu me pergunto até quando ele irá resistir à concorrência dos supermercados, das grandes lojas que vendem potes cheios de paçocas industrializadas – longe, muito longe de ter o mesmo sabor e aroma. Até quando as pessoas descerão às ruas para buscar amendoim no carrinho?

Nesta viagem temporal rememoro outros Cantos da minha Santos que vão ficando guardados em algum lugar da memória, perdidos nos baús do passado. Remexo em algumas caixas no armário e encontro o que esperava. Um papel branco, com uma estrela grande no alto escrito ao lado, em letras maiúsculas: SORTE. Em meio ao texto, frases falam de futuro, números para a loteria. “Casarás com um rapaz que tomará posse do teu coração, que será o único que amarás a vida inteira com verdadeiro afeto”. Em um dos cantos falta um pedaço do pequeno papel, fruto da bicada do papagaio que acompanhava o homem do realejo. “É para dar sorte”, disse o moço do realejo pedindo a bicada ao bichinho. E nós, moças, mal esperávamos para ler o que o futuro nos reservava, predito bem ali, no coração do Gonzaga, ao lado da Praça Independência, pelo bico do papagaio, numa tarde de sábado.

Desses não vi mais, mas ainda fazem parte dos Cantos de Santos, ainda que só sobrevivam nos cantos de minhas recordações. Junto com eles, o pai e a filha que cuidavam de uma mercearia na Avenida Conselheiro Nébias, perto do Centro. Ambos fortes, com jeito de europeu, passavam o dia sentados, aguardando o próximo freguês. O semblante sério não era animador, mas sempre que eu por ali passava no ônibus 4 tinha ímpetos de um dia saltar e perguntar quem eram, de onde vinham, como viviam. Nunca o fiz.

E a mercearia se desfez como o armazém do seu Gameiro, que tinha seu ‘secos e molhados’ bem na frente da casa da minha infância. “Seo Manoel Gameiro”, diziam os clientes que passavam pela porta. “Às suas ordens o ano inteiro”, respondia o homem, sempre bem humorado. Riam-se da piada repetida à exaustão e nós, crianças, ríamos juntos sem entender. Só achando bonita a rima.

Foi indo ao Gameiro que eu aprendi a atravessar a rua. E foi no seu armazém que eu comecei a fazer compras sozinha. Tudo era muito fácil. Ninguém precisava decorar senha do cartão de débito ou crédito para comprar no nome da mãe. Bastava dizer a senha muito mais informal: “Anota, por favor, seo Gameiro”. E ele anotava na cadernetinha onde os valores se somavam para serem pagos ao final do mês – ou quando o pagamento chegasse, assim que fosse possível.

Porque naquela época fiado era parte do comércio e dívida se pagava pela honra. Não precisava assinar, não precisava colocar senha, não precisava de biometria. Cada um sabia o que devia e sua parte seria quitada. Porque honra se media ‘pelo fio do bigode’. E lá vai o Gameiro para um Canto de Santos que só vive ainda na minha lembrança. Ao lado dele está o amolador. “Olha o amolador, olha o amolador de facas”. E o som da máquina de amolar facas que dava tanta aflição se fazia ouvir por toda a rua.

Depois vem aquela perua Kombi que levava nossas mães a correrem para a rua sem sequer tirar o avental: “Alô dona de casa, o vendedor de ovos chegou. Tragam bacias, panelas, vasilhas, qualquer recipiente. Aqui a senhora vai encontrar ovos fresquinhos, diretamente da granja e da horta ao consumidor”. A rua… Ah, a rua… Pergunto-me em que Canto da minha Santos está aquela rua democrática onde jogávamos queimada. Onde pulávamos amarelinha. De onde fugíamos quando o ‘homem do saco’ se aproximava. Ninguém nunca o viu, mas ninguém ficava para conferir ao ouvir o aviso: “O homem do saco vem aí”. O homem que pegava crianças que ficavam soltas pelas ruas e as colocava no saco sujo que carregava nos ombros.

Também está nos Cantos de Santos uma cena de ontem, hoje e amanhã: do navio apontando no horizonte, atravessando o canal e chegando ao nosso porto imponente. De emocionar. De bater palmas ver os navios em nossa barra, indo e vindo desse lindo lugar. E, como não poderia faltar, nos Cantos de Santos mora nosso povo, gente boa, hospitaleira, que continua escrevendo com orgulho a história deste lugar.