E assim caminha a humanidade: numa caminhada à beira mar

As crianças correm de um lado para o outro, agitadas, fazendo seus castelos de areia, construindo sonhos. A família relaxa da correria do dia a dia e se permite esticar um pouco mais a hora do almoço, deixar para mais tarde, quando o sol se for. Jovens desfilam a boa forma que lutaram para manter com esforço e dedicação ao longo do ano – as que não se preocuparam com isso, continuam sem se preocupar e curtem o momento e o biquíni novo com as cores do verão.

Os mais branquinhos vão ficando vermelhos ao longo do dia e as tribos repetem ali a atitude social: nerds andam com nerds de bermudão na cintura; os descolados usam bermuda baixa, cueca aparecendo, cabelo comprido. O marido se distrai olhando um biquíni que passa com uma morena escultural dentro e toma beliscão da esposa que continua bem atenta. O frescobol atrapalha a caminhada dos passantes, que precisam desviar para escapar da bola.

Jovens aventureiros sobem na prancha e pegam onda, para delírio das gatinhas que competem na areia para chamar a atenção do campeão. Os radicais afortunados podem descarregar adrenalina correndo de jet ski em manobras ousadas.

Para as crianças, o mar é grande demais e uma garotinha arrisca pegar distância antes de dar o tão esperado mergulho, na água em uma altura que mal alcança sua cintura. Para os apaixonados, o mar parece infinito e eles se perdem entre beijos e juras de amor.

Os supersticiosos pulam onda, os sem-educação jogam sujeira na areia, os animados conversam agitando a roda, as envergonhadas não tiram a canga, as ousadas usam fio dental.

A mãe distraída perde o filho que anda de mãos dadas com o 167 guarda-vidas, chorando o medo de quem teme o futuro. A mãe preocupada repassa o protetor solar. O ambulante conta feliz o troco conquistado vendendo picolé de fruta natural.

Na quadra de futebol improvisada entre sandálias havaianas, a bola rola enquanto segue a vida. A cadeira de praia quebra: riso geral. O pastel aumenta na hora do almoço, mas não diminui a fila. O sol queima forte, o chapéu não dá conta de evitar.

Água do mar tá gelada – a da garrafa ficou quente. A piscina de plástico tombou e o bebê engoliu areia.

O início da tarde leva uns e traz outros, que deixaram para passear depois do almoço. A barraca improvisada balança com o vento; a mãe reclama que o menino se queimou demais. O coco acabou. O protetor solar também.

O sol vai rareando, mostrando que é hora de voltar para casa. Na poça de água sobre a areia, os últimos raios apresentam um espetáculo de luz. O céu rosado não tarda a se fechar.

Enquanto a gente caminha à beira mar, observando a humanidade passar assim, na nossa frente, repensa a vida, refaz os sonhos, prepara novos planos para o Ano Novo, pensando que a vida deveria ser sempre assim: simples, quente, reconfortante. Como uma caminhada à beira mar.